será que vai dar ruim de novo?

todos os dias eu me forço a acordar bem. me obrigo a levantar, ir pra sala que geralmente tem estado 3 ou 4 pessoas pela tarde, cumprimentar um por um e interagir da maneira menos desgastante possível, até que uma hora seja aceitável que eu volte pro quarto. um quase-ritual que poderia muito ser melhor executado, eu sei, mas imperam as limitações. sinto que devo isso à minha mãe. nós duas vivemos na esperança de construir uma boa relação e se serve pelo menos pra que nos dê essa falsa sensação, tudo bem.

é simples fingir estar feliz, todo mundo sempre acredita. o lado ruim de manter uma aparente constância é quando falta a energia pra encobrir a realidade. cedo ou tarde, ela sempre some. e então é libertador não precisar interpretar uma personagem que traz pouco de quem eu sou. mas, a partir dessa hora, é sufocante lidar comigo mesma, sempre em silêncio, enquanto o muito vem à tona.

só penso em fugir, me isolar e descartar qualquer coisa que requira esforço. involuntariamente, mas ao mesmo tempo um pouco consciente, só decido ceder e me cravar num lugar que é tão ideal que não faz parte do mundo físico. na verdade, deve ser no único espaço calmo dentro da minha cabeça. lá não é preciso me mexer, não é preciso me movimentar, não é preciso sorrir, não é preciso acenar, não é preciso fingir interesse, não é preciso conversar… acho que no fundo isso foi o que eu sempre quis alcançar.

tô cansada.

a transição

desde que tudo aquilo aconteceu eu me perdi. aos 11 anos me desconfigurei. não porque quis, não porque aceitei, mas porque foi inevitável. é daquelas coisas que ninguém ensina, e que mesmo que eu tivesse aprendido, não entenderia. foi mais fácil sentar e observar de longe a vida passar. acompanhar a mudança no relógio, no calendário e só me dar conta muitos e muitos anos depois que, eu, de fato, me extingui.

na época, era como se meu corpo flutuasse enquanto minha mente tentava preservar seus últimos resquícios em outra dimensão. não era mais eu. as recordações ecoam unicamente como eventos que não presenciei nem vivi. entretanto, ainda que tenha me transformado apenas em vestígios, sei que subsistir naquele estado foi o melhor para me abster de perceber que, quando eu abrisse os olhos, a realidade estaria ali, esperando para ser encarada. grudada, alastrada, enraizada.

minha identidade foi destruída, meus sonhos de menina se desintegraram, minha personalidade foi substituída por uma pior e qualquer coisa que até então existia daquela lívia, desapareceu. e em certo momento as consequências começaram a sufocar. lembro das crises de choro na frente da minha mãe porque queria me machucar ou me matar e das que continuo tendo sozinha. de todo o ódio incessantemente nutrido por cada pedaço de mim mesma se fazendo presente nos 1440 minutos do dia. e do pânico que é a falta de coragem em me encerrar, que também me enraivece.

hoje, vou me tornando uma mulher sem perspectiva nenhuma de vida. incerta sobre meus próprios gostos, hesitante em escolher um rumo e completamente estática e improdutiva nos afazeres. instável, inconstante, inconsistente e insegura. com um passado inatingível, um presente desesperador e um futuro desesperançoso. de pensamentos duvidosos e atitudes questionáveis. com a visão turva de memórias já esvaídas. extremamente oscilante. que sente medo em tempo integral e é inteiramente sobrecarregada de culpa.

que se pergunta quando vai e se tem como sair daqui.

boas vindas

faz muito tempo que eu não escrevo. quando mais nova, ainda curtia criar um texto ou outro lotado de coisas bobas que aos meus olhos eram palavras revolucionárias. com o passar dos meses, e agora anos, perdi a prática, o hábito e o prazer que achava encontrar na escrita. aliás, pra ser sincera, não lembro de como funcionava essa relação, só sei que já disse por aí que queria ser escritora quando crescesse… então talvez tenha significado alguma coisa, né? de qualquer forma, no meio da noite passada, do nada, eu decidi que queria um blog pra postar meus textos e minhas identificações. tô com muita vergonha, mas esse é o primeiro post. oi!

Crie um novo site no WordPress.com
Comece agora